UP RORIX

 

 

 

 

 

 

[ Quem Escreve ]


Cearense, 25 anos.


[ blogs que recomendo ]


Anna Dandy


pensando alto


engenhoca


Noise3d


Lilimaverde


Chez nous


Love & Rockets



[ sites que recomendo ]


rraurl


nodo50


SOMA


christiania


Bolo`Bolo


cnt


revista utopia


PopLink

ARQUIVOS

on-line

 

 

 

 

 

Comentaram:

[ Segunda-feira, Maio 31, 2004 ]

Escadas

Antes de velo já o conhecia,
Encontrei-me na torre
De uma igreja norte-sul
É a vida, bela-flor.
Dor, papel e tinta...
Rasgo meus versos
Na ilusão de te amar
Mesmo assim
É o canto descido do céu...
O outro é quem sou
Na verdade esquecida de si
As palmas das mãos
Dadas aos pés das rodas,
O sol me acha
Por já não lembrar
Quando o vejo recitando
O amor já encontrado
Toco os galhos
E só depois te reconheço
Não sou mais eu
Nem és teu
Somos um
Somos nós.



Isabel Galvão


Postado por Rorix às 5:23 PM.

____________________________________________________

Comentaram:

[ Domingo, Maio 30, 2004 ]

NO DICIONARIO FEMINISTA . . .


Assédio Sexual

As definições são extremamente variáveis. Certos países, Alemanha e Áustria por exemplo, dão a esta expressão uma acepção mais ampla incluindo todas as alusões sexistas; outros, como a França, se atêm a uma definição legal mais estreita, visando apenas o assédio sexual exercido por um superior hierárquico. Essa denominação designa todas as condutas de natureza sexual, tais como expressões físicas, verbais ou não verbais, que são propostas ou impostas às pessoas contra sua vontade, notadamente sobre seu local de trabalho, e que significa atentado a sua dignidade. A maior parte desses comportamentos é dirigida contra as mulheres e constitui uma expressão de poder dos homens sobre as mulheres.

Muitas gerações de mulheres foram, e são ainda, submetidas a solicitações de ordem sexual, não desejadas... Marie-Victoire Louis, analisando a condição das mulheres no momento de surgimento do assalariamento, escreve: "Os direitos de uso dos corpos das mulheres, compreendendo sua dimensão sexual, foram perpetuados no seio da relação salarial".

Foram as feministas americanas da Universidade de Cornell que, nos anos 70, designaram pela primeira vez sob o nome de assédio sexual esse tipo de conduta masculina. Elas se referiam então, mais concretamente, às práticas advindas dentro do quadro das relações de trabalho com os homens. A partir de 1975, esse conceito se generaliza nos países anglo-saxões. Apesar das análises feministas, o assédio sexual não foi considerado como um fenômeno importante até os anos 1980.

No domínio jurídico, Catherine Mackinnon (1979) nos EUA foi a primeira a introduzir o conceito de assédio sexual no âmbito da doutrina legal e apresentando-o como sendo uma forma de discriminação sexual (...).

Nos países europeus, esse conceito de assédio sexual também foi adotado. Foi em meados dos anos 1980 que foi reconhecida verdadeiramente a importância do problema, sobretudo dentro do quadro do trabalho. Em 1987, a Comissão Européia publica o primeiro relatório sobre a questão, definindo o assédio sexual como "uma conduta verbal ou física de natureza sexual na qual o autor sabe ou deveria saber que ela é ofensiva para a vítima". Esse documento permitiu obter conhecimento da situação em diferentes países europeus.

Há diferentes abordagens da questão. Certas feministas americanas se recusam a limitar o fenômeno às relações de trabalho, porque elas o consideram como uma forma de relações de poder homem/mulher que se exerce igualmente em outras situações. Outras, ao contrário, se centram no campo do trabalho e mostram em particular que o assédio sexual é um elemento determinante da segregação no mercado de trabalho.(...)
Na França, as associações feministas (dentre elas a L'AVFT, criada em 1985) são as primeiras a reivindicar a sanção legal do assédio sexual. Elas propõem, desde 1990, uma definição inspirada nos textos da Comunidade Européia e nos conceitos norte-americanos, que incluem o assédio sexual exercido por colegas de trabalho e a chantagem sexual exercida por um superior hierárquico. Mas discussão do fenômeno rapidamente se limitou aos debates parlamentares.... O medo dos parlamentares de se abusar do conceito fez com que o limitasse a uma definição fundada unicamente sobre o abuso de autoridade com finalidade de obter favores sexuais.

Atualmente os debates sobre a questão são consideravelmente de baixa intensidade salvo na Itália onde se interroga ainda sobre a pertinência de votar uma lei. Nos outros países, as associações feministas e comissões de mulheres sindicalistas se esforçam por dar apoio jurídico e psicológico às mulheres que denunciam esse tipo de agressão.


Machismo

É um conjunto de leis, normas, atitudes e/ou traços sócio-culturais do homem cuja finalidade, explícita e/ou implícita, tem sido e é, produzir, manter a submissão da mulher em todos os níveis: sexual, procriativo, trabalhista e afetivo.

A palavra machismo é utilizada primordialmente no âmbito coloquial e popular. Um termo mais apropriado (sobretudo em nível ideológico) para expressar dito conceito é sexismo, já que o primeiro se utiliza para caracterizar aqueles atos, físicos ou verbais, por meio dos quais se manifesta de forma vulgar o sexismo subjacente na estrutura social. No plano psicológico, a diferença entre sexismo e machismo é que o sexismo é consciente e o machismo inconsciente; isto é, o machista atua como tal sem necessariamente ser capaz de explicar ou dar conta da razão interna de seus atos, já que unicamente se limita a reproduzir e a por em prática de um modo grosseiro (grosso modo), aquilo que o sexismo da cultura a que pertence por nacionalidade ou condição social lhe brinda. Daí que um machista pode até sentir-se orgulhoso e presumir que ser "muito macho" é sem dúvida normal se sua personalidade profunda não tem bases ideológicas e psicológicas de misoginia (ódio /medo das mulheres muito ligado ao sexismo). Ao tomar consciência de seu machismo e as conseqüências deste, o indivíduo pode modificar muitos aspectos de seu comportamento. A mulher pode compartilhar do machismo na medida em que não é consciente das estruturas de poder que regulam as relações entre os sexos e as reproduz e/ou contribui para que os homens continuem reproduzindo-as.




Postado por Rorix às 12:40 PM.

____________________________________________________

Comentaram:



Com que corpo eu vou?
por Maria Rita Kehl

Na coletânea "Nu e Vestido", antropólogos revelam como, para milhares de brasileiros, o sentido da vida cada vez mais se reduz à produção do físico ideal

"O corpo tem alguém como recheio"
Arnaldo Antunes, tema para o grupo "Corpo", em 2000

Que corpo você está usando ultimamente? Que corpo está representando você no mercado das trocas imaginárias, que imagem você tem oferecido ao olhar alheio para garantir seu lugar no palco das visibilidades em que se transformou o espaço público no Brasil? Fique atento, pois o corpo que você usa e ostenta vai dizer quem você é. Pode determinar oportunidades de trabalho. Pode significar a chance de uma rápida ascensão social. Acima de tudo, o corpo que você veste, preparado cuidadosamente à custa de muita ginástica e dieta, aperfeiçoado por meio de modernas intervenções cirúrgicas e bioquímicas, o corpo que resume praticamente tudo o que restou do seu ser é a primeira condição para que você seja feliz.
Não porque ele seja, o corpo, a sede pulsante da vida biológica. Não porque possua uma vasta superfície sensível ao prazer do toque -a pele, esse invólucro tenso que protege o trabalho silencioso dos órgãos. Não pela alegria com que experimentamos os apetites, os impulsos, as excitações, a intensa e contínua troca que o corpo efetua com o mundo. O corpo-imagem que você apresenta ao espelho da sociedade vai determinar sua felicidade não por despertar o desejo ou o amor de alguém, mas por constituir o objeto privilegiado do seu amor próprio: a tão propalada auto-estima, a que se reduziram todas as questões subjetivas na cultura do narcisismo.

Nesses termos, o corpo é ao mesmo tempo o principal objeto de investimento do amor narcísico e a imagem oferecida aos outros -promovida, nas últimas décadas, ao mais fiel indicador da verdade do sujeito, da qual depende a aceitação e a inclusão social. O corpo é um escravo que devemos submeter à rigorosa disciplina da indústria da forma (enganosamente chamada de indústria da saúde) e um senhor ao qual sacrificamos nosso tempo, nossos prazeres, nossos investimentos e o que sobra de nossas suadas economias.





"Nu e Vestido" é um livro recém-editado pela Record, reunindo estudos de dez antropólogos brasileiros e estrangeiros a respeito da cultura do corpo no Rio de Janeiro, hoje. O título, que remete intencionalmente ao famoso estudo de Claude Lévi-Strauss, "O Cru e o Cozido", revela o interesse dos autores pelo corpo como um complexo conjunto de signos classificatórios que indicam as diferenças sociais na cultura do Rio de Janeiro, o que vale também para outras culturas urbanas no Brasil. O grande interesse do livro, a meu ver, são os dados e os depoimentos colhidos pelos antropólogos; quanto às análises empreendidas, tive a impressão de que a preocupação com o rigor acadêmico tolheu a liberdade e a criatividade dos autores, que em geral descrevem exaustivamente os respectivos campos de investigação, mas não arriscam muito na interpretação teórica dos dados.

No entanto a atualidade do objeto e a força das informações colhidas dão o que pensar. Vivemos em uma cultura do corpo. Cada pesquisador escolheu um aspecto dessa cultura: as academias de musculação; o culto à praia; as operações plásticas e enxertos de silicone; o consumo de hormônios e anabolizantes; o cultivo do bronzeado; a moda. O conjunto nos parece monstruoso. Para milhares de brasileiros, incentivados pela publicidade e pela indústria cultural, o sentido da vida reduziu-se à produção de um corpo. A possibilidade de "inventar" um corpo ideal, com a ajuda de técnicos e químicos do ramo, confunde-se com a construção de um destino, de um nome, de uma obra. "Hoje eu sei que posso traçar meu próprio destino", declara um jovem freqüentador de academias de musculação, associando o aumento de seu volume muscular à conquista de respeito por si mesmo.

As ciências biomédicas, em defesa de uma (pretensa) saúde, ocuparam o lugar deixado vazio pelos discursos religiosos, filosóficos e morais no mundo contemporâneo. Seu saber orienta uma variadíssima indústria do corpo, ainda em expansão no Brasil, cujos imperativos em nome da vida, da felicidade e da saúde conquistam mercados e mentes. O cuidado de si volta-se para a produção da aparência, segundo a crença já muito difundida de que a qualidade do invólucro muscular, a textura da pele e a cor dos cabelos revelam o grau de sucesso de seus "proprietários". Numa praia carioca, escreve Stéphane Malysse, as pessoas parecem "cobertas por um sobrecorpo, como uma vestimenta muscular usada sob a pele fina e esticada...".

São corpos em permanente produtividade, que trabalham a forma física ao mesmo tempo em que exibem o resultado entre os passantes. São corpos-mensagem, que falam pelos sujeitos. O rapaz "sarado", a loira siliconada, a perua musculosa ostentam seus corpos como se fossem aqueles cartazes que os homens-sanduíche carregam nas ruas do centro da cidade: "Compra-se ouro". "Vendem-se cartões telefônicos." "Belo espécime humano em exposição."

É fato que as sociedades burguesas, desde o século 19, consideraram o corpo como propriedade privada e responsabilidade de cada um. O corpo -mas o corpo vestido, domado pela compostura burguesa e embalado pelo código das roupas- era o primeiro signo que o "self-made man" em ascensão, sem antecedentes nobres, emitia diante do outro a respeito de quem ele "é". A aparência substituiu, com vantagens democráticas, o "sangue". O corpo bem-comportado de até poucas décadas atrás dizia: sou uma pessoa decente, confiável, honrada -e meus negócios vão bem.

O corpo malhado, sarado e siliconado do novo milênio diz: sou um corpo malhado, sarado, siliconado. O circuito se fecha sobre si mesmo. Parece a ética dos "cuidados de si" pesquisada por Michel Foucault, mas não é. O sentido da prática dos cuidados de si a que se dedicavam alguns cidadãos romanos, na Antiguidade, estava diretamente articulado ao papel desses homens na vida pública. Ser capaz de cuidar bem do corpo e da mente era condição para cuidar bem dos assuntos da "polis". No Brasil de hoje, em que o espaço público foi a um só tempo desmantelado e ocupado pela televisão, a produção dos corpos é a produção da visibilidade vazia, da imagem que tenta apagar a um só tempo o sujeito do desejo e o sujeito da ação política.

A cultura do corpo não é a cultura da saúde, como quer parecer. É a produção de um sistema fechado, tóxico, claustrofóbico. Nesse caldo de cultura insalubre, desenvolvem-se os sintomas sociais da drogadição (incluindo o abuso de hormônios e anabolizantes), da violência e da depressão. Sinais claros de que a vida, fechada diante do espelho, fica perigosamente vazia de sentido.

Maria Rita Kehl é psicanalista e ensaísta, autora de "Sobre Ética e Psicanálise" (Companhia das Letras), entre outros.

Nu e Vestido



Postado por Rorix às 12:38 PM.

____________________________________________________

Comentaram:

[ Quinta-feira, Maio 27, 2004 ]

NÃO PISE NA GRAMA

Placa inútil e amarela:
"Não pise na grama."

Amarela
pela ausência de girassóis.

Inútil
porque não tenho os pés no chão
___________________________

REVELAÇÃO

Eu me esqueci no armário.

Pensei estar vivendo,
estudando, trabalhando, sendo!

Pensei ter amado e odiado,
aprendido e ensinado,
fugido e lutado,
confundido e explicado.

Mas hoje, surpreso,
me vi no armário embutido
calado, sozinho, perdido, parado.
_____________________________

INFÂNCIA

No vento,
Pedrinho perdeu
sua sombra.

- Cadê tua sombra, menino?
Gritou a mãe.

- Só não perde a cabeça porque está
....................... ..... [ presa no pescoço.
Disse a vó.

Pedrinho ria a danar.

Depois foi estudar
enquanto a sombra brincava
de ser noite.


www.fabiorocha.com.br


Postado por Rorix às 12:09 AM.

____________________________________________________

Comentaram:

[ Segunda-feira, Maio 24, 2004 ]

Israel cumpriu suas ameaças e cobriu de morte e destruição a cidade de Rafah, ao sul da faixa de Gaza, onde uma brutal operação matou 20 cidadãos palestinos outros dois foram mortos na Cisjordânia. As tropas israelenses iniciavam na primeira hora de segunda-feira 17 de maio a Operação arco-íris sobre as nuvens, ofensiva em que participam tanques, blindados e helicópteros. A gigantesca incursão durará por tempo indefinido.

Os desesperados clamores palestinos à comunidade internacional nos últimos dias para que Israel detenha sua máquina de morte e destruição, desta vez em Rafah, não lograram êxito. O governo de Ariel Sharon ignorou as críticas e as tímidas petições nesse sentido e, em outro exercício de impunidade, bombardeou o bairro de refugiados de Tel-al-Sutran, a oeste de Rafah, cidade cercada e isolada do resto da faixa de Gaza desde a última segunda-feira.


As denúncias palestinas e árabes se multiplicaram desde então para alertar sobre os crimes de guerra israelenses, a catástrofe humanitária, a limpeza étnica, o genocídio, bem como as críticas internacionais, porém as palavras e as críticas no papel, assim como "o desprezo" de Israel pela legalidade internacional e o decorrer do conflito nunca deterão o Estado Terrorista de Israel. O conselheiro de segurança da ANP (Autoridade Nacional Palestina), Yibril Rayub, acusou os Estados Unidos de proporcionar cobertura ao massacre promovido por Israel.


Assim, a anunciada matança batizada como Operação Arco-Íris sobre as nuvens, que, segundo relato das Sagradas Escrituras apareceu depois do dilúvio bíblico, estaria em marcha a partir da meia-noite da segunda-feira, 17 de maio de 2004. Uma coluna de tanques e veículos blindados apoiados por helicópteros de combate Apache, de fabricação estadunidense, irromperam no bairro, onde continuam sua operação de destruição maciça de casas e uma caça, casa por casa, de terroristas palestinos, além de ampliar o chamado corredor Filadélfia.


As distintas organizações de resistência palestina uniram suas forças ante o invasor, porém a disparidade de meios a defesa da cidade tornaram qualquer reação impossível. Os helicópteros lançaram mísseis contra os habitantes do bairro e, segundo o responsável dos serviços de urgência de Rafah, Murid Kromb, também abriram fogo deliberadamente contra as ambulâncias.

O médico palestino Mohamed Salameh corroborou essa informação e pediu à comunidade internacional, e em particular à Cruz Vermelha e a outras organizações humanitárias que atuem de imediato em Rafah e detenham os massacres cometidos por israelitas.


Antes da gigantesca incursão cerca de 3 mil pessoas já haviam abandonado suas casas, e quando souberam que a coluna de blindados se aproximava da cidade outros milhares de palestinos deixaram suas moradias levando documentos e o que podiam carregar.


Esta é uma guerra real de Israel contra nós, afirmou o alcade de Rafah, Saed Zurub, que explicou que os ocupantes israelenses haviam cortado a eletricidade e o fornecimento de água. O propósito do Exército é destruir nossas infra-estruturas. Rafah é o campo de refugiados mais pobre na faixa de Gaza e do mundo; clamo à comunidade internacional para que esteja consciente de que se a operação continuar seremos testemunhas de uma catástrofe humanitária, afirmou.


Ao tomar conhecimento da operação israelense, os habitantes de Ramala decretaram feriado geral e saíram às ruas para protestar. Em Naplusa os invasores mataram um palestino, e outro em Jenin.

O ministro do Exterior de Israel, Silvan Shalom, reclamou da Unidade Européia uma atitude mais equilibrada e objetiva no Oriente Médio, e pediu ao seu colega espanhol Moratinos que exija da Autoridade Nacional Palestina medidas contra o terrorismo. Moratinos disse que condena o terrorismo contra o Israel e que nessa luta ambos os países caminham juntos. Nem uma palavra sobre o terrorismo israelense.


A Liga Árabe acusou Israel de promover uma limpeza étnica na localidade de Rafah. Consideramos que esses crimes de guerra se enquadram em uma campanha de limpeza étnica, diz o texto, que pressiona o Conselho de Segurança a assumir responsabilidades.

George Bush apoiou implicitamente a matança israelense em Rafah ao reiterar o direito de Israel de defender-se do terrorismo. Ao referir-se à incursão israelense em Rafah, Bush acertou ao dizer que o recrudescimento da violência na faixa de Gaza é perturbador. Tel Aviv disse que a culpa é da Autoridade Nacional Palestina.



O chefe das Forças Armadas de Israel, o general Moshé Yalóon, atribuiu a matança de Rafah à falta de cooperação da Autoridade Nacional Palestina. O que nos fizeram os palestinos fazemos agora nós e por nossa conta, afirmou.


As imagens da força militar de Israel foram transmitidas ao mundo inteiro. Soldados disparando na cabeça dos feridos. Tanques derrubando paredes de casas, escritórios, o complexo de Arafat. Centenas de crianças e homens, com as cabeças encapuchadas, sendo levados à coronhadas para os campos de concentração; helicópteros artilhados destruindo mercados; tanques destruindo olivais, laranjais e limoais.

As ruas de Ramallah devastadas. Mesquitas e escolas crivadas de balas, desenhos de crianças feitos em pedaços, crucifixos transformados em cacos, paredes pichadas pelos saqueadores do exército israelense. Milhões de palestinos rodeados por tanques: com a eletricidade cortada, a água, os telefones, sem alimentos. As tropas de assalto arrombam as portas e quebram os móveis e utensílios domésticos, o que seja que torne possível a vida.

Por acaso alguém pode hoje em dia dizer que não sabia que os israelenses estavam cometendo um genocídio contra todo um povo amontoado nos sótãos, sob as ruínas de seus lares?

É negada deliberadamente aos sobreviventes entre os feridos e agonizantes a assistência médica; as decisões sistemáticas e metódicas do Alto Comando israelense são de bloquear todas as ambulâncias, de prender e até atirar contra os motoristas e pessoal de emergências medidas. Temos o duvidoso privilégio de ver e ler no mesmo instante como se desenvolve todo este horror por parte dos descendentes do Holocausto, os que com hipocrisia e rancor reivindicam o monopólio do uso da palavra que melhor descreve o ataque contra todo um povo, com a cumplicidade da maioria dos israelenses exceto umas poucas almas valentes.

O público israelense, seus meios de comunicação e jornalistas se escandalizaram quando o português ganhador do Prêmio Nobel de Literatura, José Saramago, confrontou-os com a verdade histórica: O que está acontecendo na Palestina é um crime que podemos comparar com o que ocorreu em Auschwitz.

O público israelense, ao invés de refletir sobre seus atos violentos, lançou-se contra Saramago por este ter se atrevido a compara-los com os Nazis. Em sua cegueira moral, Amos Oz, o escritor israelense e por muito tempo pacifista até que Israel entra em guerra acusou Saramago de ser um anti-semita e de uma ¿incrível cegueira moral. A profunda imoralidade de uma guerra contra todo um povo é um crime contra a humanidade. Não há exceções especiais. São exatamente esses intelectuais israelenses e da diáspora que se dizem progressistas que expuseram sua própria cegueira nacional e sua covardia moral, encobrindo suas desculpas para o terror israelense com os trapos das vítimas do Holocausto de há 50 anos.

É preciso apenas ler a imprensa israelense para compreender a validade da analogia histórica de Saramago. Dia a dia, líderes proeminentes e respeitáveis eleitos pelo eleitorado judeu bestializam seus adversários palestinos, tudo isso com o propósito de justificar melhor sua própria violência desenfreada. Segundo o diário israelense Ma Arriv citado por Robert Fisk um oficial israelense aconselha a suas tropas estudar as táticas adotadas pelos Nazis na segunda guerra mundial. Se o nosso trabalho é tomar campos de refugiados densamente povoados em Casbh de Nablus, um oficial deve analisar as lições das guerras passadas, inclusive analisar como o exército alemão atuou no gueto de Varsóvia.

Quando a imprensa hebréia acusou a Saramago de ser anti-semita, estavam dispostos a estender essa calúnia aos oficiais de seu exército e a suas tropas por utilizar as mesmas analogias?

Será que os oficiais israelenses também vão alegar simplesmente que ¿estavam cumprindo ordens ao destruir edifícios com mulheres, crianças e idosos em seu interior?

Nos fóruns mundiais desde a União Européia até as Nações Unidas e em todo o Terceiro Mundo - se condena Israel por atos contra a humanidade. Os defensores de Israel descobrirão que tachar os críticos de anti-semitas já não intimida as pessoas. A opinião pública mundial viu e leu muito. Estamos nos dando conta de que as vítimas podem se transformar em executores; que a ocupação militar leva à limpeza étnica e às expulsões massivas; que os arranhões podem se transformar em gangrena.

De forma previsível, Washington apóia as poderosas organizações judias e os militaristas da extrema-direita: É somente o governo que respalda o terrorismo do estado israelense, contra os líderes de fé cristã e muçulmana, e contra os interesses das maiores companhias petroleiras e de seus aliados da Arábia Saudita e do Kuwait.

Enquanto que pequenos grupos de dissidentes israelenses protestam e muitos reservistas se negam a servir no exército de ocupação, o comentário de Saramago sobre a opinião pública israelense se aplica igualmente à maioria da diáspora pró-israelense: Um sentimento de impunidade caracteriza hoje em dia o povo israelense e seu exército. Foram transformados em rentistas do Holocausto. Com a prática de um estado policial qualquer, Israel retirou todos os livros de Saramago das livrarias e das bibliotecas. Com a mesma seriedade com que se preparou para o genocídio, o estado israelense proibiu a entrada de todos os jornalistas aos guetos palestinos, a exceção daqueles que absorvem os comunicados de imprensa do exército israelense.

Como na Alemanha Nazista, todos os homens palestinos entre 16 e 60 anos são capturados, muitos deles despidos, algemados, interrogados, e muitos deles torturados. As famílias dos combatentes da resistência palestina são feitas reféns, sem água, alimento ou eletricidade. Os soldados israelenses saqueiam as casas e roubam qualquer objeto de valor, destruindo os móveis. Como os nazistas, deixa-se morrer centenas de palestinos feridos enquanto que as tropas israelenses bloqueiam todas as ambulâncias. Centenas de milhares enfrentam a desidratação e a morte por inanição, dado que se cortou todo o fornecimento de água e alimento. Tropas israelenses, tanques e helicópteros, destruíram todas as cidades principais e campos de refugiados: Tulkarm, Al Bireh, Al Jader, Beit Jala, Oalquilya, Hebron. A descoberta de um só combatente da resistência resulta em culpa e castigo coletivos: pais, filhos, tios e vizinhos são arrastados pela força e levados aos campos de concentração, campos de futebol e parques infantis reconvertidos.

É evidente que a indignação israelense e judia pela equiparação feita por Saramago do terrorismo israelense com Auschwitz colocou o dedo sobre uma ferida sensível: o desprezo em relação a si mesmos dos executores que se dão conta de que são discípulos de seus carrascos e que, a todo custo, devem negar isso. Até hoje, todas as apelações feitas pelos árabes moderados perante Bush, para que intervenha para por fim ao massacre perpetrado pelos israelenses foram fúteis. Washington reiterou seu apoio a Sharon, à invasão e à guerra contra os palestinos. Não há nenhum poder nos EUA possa se contrapor ao dinheiro e à influência do lobby israelense e de seus poderosos aliados judeus. Em outros lugares, no entanto, há esperança. A Via Campesina e os seguidores de José Bové fizeram um apelo para por em prática um boicote dos bens e serviços israelenses. Israel depende fortemente de suas exportações à União Européia. As reduções nos envios de petróleo dos países exportadores, particularmente da Arábia Saudita, Kuwait, Iraque e Líbia poderiam provocar um forte aumento dos preços do petróleo e uma crise econômica de importantes proporções nos EUA, Europa e Japão. Isto poderia endireitar a covardia européia e despertar a consciência do público norte-americano.

O que está absolutamente claro é que enquanto que Tel Aviv contar com a alavanca do lobby israelense em Washington e com o apoio de Bush, não importa que quantidade de resoluções das Nações Unidas, Convenções de Genebra e apelos europeus sejam feitos, estes serão ignorados por completo. Na mentalidade de bunker de Sharon e de seus paranóicos seguidores israelenses são todos anti-semitas, seguidores dos Protocolos de Zion, que tentam desmoralizar os israelenses para que não realizem a missão bíblica de uma Grande Israel, um povo, uma nação, um Deus; a expulsão de todos os palestinos de sua Terra Prometida.

A opinião pública mundial não pode continuar passiva e repetir a tragédia do Holocausto judeu do século XX no século XXI. Ainda há tempo.

Mas por quanto tempo pode resistir um povo heróico sem água e comida?

A oferta de Sharon a Arafat a liberdade de partir sem poder regressar nunca mais -, está dirigida a todo o povo palestino



Postado por Rorix às 1:32 AM.

____________________________________________________

Comentaram:

[ Segunda-feira, Maio 17, 2004 ]

"Farenheit 9/11" é eficiente arma de propaganda anti-Bush

RUBENS EWALD FILHO


"Farenheit 9/11" foi o maior sucesso do Festival de Cannes até agora, com filas intermináveis, confusão na porta e aplausos entusiasmados ao final da exibição. O novo filme de Michael Moore é capaz de não ganhar nada em Cannes (seu filme anterior, "Tiros em Columbine", o primeiro documentário a concorrer aqui em décadas, levou prêmio especial do júri e acabou ganhando o Oscar da categoria), mas, sem dúvida, está sendo comentado e aprovado. Até porque ele tem pouco trabalho em ridicularizar o presidente George W. Bush. O próprio já faz o trabalho sujo por si próprio, com comentários absurdos a tal ponto de Moore brincado que deveria compartilhar com Bush o crédito de co-roteirista, porque o presidente dos EUA faz as melhores piadas. "Eu sou o 'escada', o Dean Martin; Bush faz o Jerry Lewis, o palhaço", disse Moore.

Parte do problema da repercussão de "Farenheit 9/11" é que ele passa em sessões alternativas à tarde e ainda era totalmente desconhecido do público, apesar da promoção feita pelo próprio Moore, já que a Disney havia recusado distribuir o filme -parece que não deseja comprar brigar com o governo que a apóia; tanto que há uma frase em que Bush manda as pessoas visitarem os parques Disney. Segundo Moore, ele ainda está sem distribuidor, mas parece certo que a Miramax vai comprar sua parte e distribuí-lo por uma subsidiária. Não há o que temer, o filme chegará ao público de qualquer jeito antes da eleição, ele afirma. Um dado curioso: o contrato com a Miramax garante que Moore ainda pode mexer no filme, caso ache necessário atualizá-lo. E, pelo andar da carruagem, isso vai acabar acontecendo.

O título de "Farenheit 9/11" se refere ao filme "Farenheit 451", de François Truffaut, baseado no livro de Ray Bradbury, sobre uma ditadura do futuro em que se queimam livros proibido. Farenheit 451 seria a temperatura em que a página de papel se queima. No caso de Moore, é o que acontece depois do 11 de Setembro. Segundo o diretor, ele já havia começado a filmar o documentário, que fala mal da família Bush e de suas ligações perigosas, quando os próprios fatos foram conduzindo o filme por outros caminhos, mostrando a Guerra do Iraque e suas conseqüências. Ou seja, continua a ser um ataque a Bush só que ainda mais fundamentado, quase uma síntese de todas as calamidades que os Bush pai e filho cometeram.

No filme Moore aparece menos na frente da câmera, interfere menos. Fica mais na narração bem humorada, ilustrada com cenas de telejornais ou imagens inéditas de correspondentes free-lancers. Mas Moore faz duas interferências marcantes. A primeira é quando visita uma assistente social de sua cidade natal (Flint, Michigan), feliz e patriótica porque o filho está na guerra do Iraque. Depois ele a reencontra em Washington diante da Casa Branca quando ela chora desesperada porque o filho morreu (e uma outra pró-Bush tenta interferir com lugares-comuns e diz que é tudo armação). Outra interferência importante é quando ele se posta na frente do congresso americano e tenta fazer com que os deputados assinem um papel comprometendo-se a enviar os próprios filhos para a guerra. Claro que ninguém faz isso, passam fugindo da câmera. Apenas um deputado tem um filho engajado na Guerra.

Ou seja, o ataque desta vez não é só contra Bush, mas contra todo o sistema que o apóia. Tive a sensação de que Moore se precaveu, orientado por algum advogado, e deixou muito claro por diversas vezes que é a favor da América. Mas contra Bush, para não ser chamado de traidor.

Talvez para os mais bem informados o filme não traga tanta novidade, porque já se sabia que os Bush tinham ligações perigosas com os sauditas, com a família de Bin Laden, que protegeram descaradamente na época do ataque Ao WTC. Também é evidente que, seguindo os preceitos de "1984", de George Orwell, o governo Bush sobreviveu pelo medo que provocou na população, que a cada momento acreditava que haveria outro atentado. E a imprensa e a opinião pública foram tão manipuladas que a maioria apoiou a invasão do Iraque, mesmo estando claro que não haviam provas para isso, a não ser a óbvia vontade de ficar com o petróleo local para si próprio.

Mas o que há de novo no filme? Segundo Moore, os documentos em que mostra a ligação de Bush com James Bath, seu parceiro de malandragens desde o tempo em que estavam no Exército, as imagens que mostram o sofrimento do povo iraquiano com a guerra (que as emissoras de TV dos EUA evitam), depoimentos de soldados desiludidos e alguns momentos também em que eles debocham e hostilizam os árabes (não são as famosas fotos de tortura, são feitas em exteriores e menos ferozes, ainda que já demonstrem o espírito reinante. Uma vergonha!).

Moore revelou também que o filme iria ser produzido pela firma Icon, de Mel Gibson, que havia distribuído "Tiros em Columbine" com sucesso na Austrália. Mas depois de tudo assinado, eles abandonaram o projeto, afirmando em "off" que era por pressão do governo (ou Mel não queria brigas com Bush). Moore afirma que, como sempre, tentou fazer um documentário bem humorado, bom de ser visto e discutido, mas que revela mistérios e deverá chocar a opinião pública dos EUA, sempre muito mal informada. Segundo Moore, o filme quase não trata de Tony Blair, porque ele é inglês, portanto problema dos ingleses. Mas Moore diz que não entende como Blair, um homem inteligente, forma essa dupla tão estranha com Bush (e faz piada com a declarçaõ de Bush de que os dois usavam a mesma pasta de dente). Algo muito suspeito...

Uma das frases mais contundentes do filme é a que diz que comportamento imoral gera mais comportamento imoral. Ou seja, as tropas não são as únicas culpadas, já que Bush nunca as apoiou de verdade (o filme revela cortes de verbas para veteranos), despreza os jovens e fez tudo baseado numa mentira só para ter lucro com a invasão e a morte de americanos. A falha de caráter, como disse em discurso, é dele e de seus parceiros.

Sem dúvida, o filme será muito utilizado como arma de propaganda neste ano de eleição presidencial nos EUA (ele lembra que a eleição de Bush foi marcada por fraudes), e Moore se diz otimista: "Levamos anos para descobrir sobre o Vietnã, agora, sobre o Iraque, tem sido apenas meses".

Depois de elogiar os franceses ("como os velhos amigos que apoiaram a independência americana e por isso devíamos ter sido mais gratos, especialmente porque estavam certos"), ele concluiu: "O mundo é perigoso. Mas sempre foi assim. Devemos tomar precauções. Mas quando a gente corta as nossas liberdades, estamos na verdade fazendo o trabalho dos terroristas."

Polêmico, divertido, francamente anti-Bush, "Farenheit 9/11" talvez seja inferior a "Tiros em Columbine" como cinema, mas como arma de propaganda certamente pode ser muito eficiente.


Postado por Rorix às 10:49 PM.

____________________________________________________

Comentaram:

[ Sexta-feira, Maio 07, 2004 ]

Acredito na pregação pacifista, na sensibilidade dos indivíduos, na doutrinação acrata, na inutilidade do ódio, da inveja, do rancor, da vaidade e da ambição!

Acredito na pedra, na areia, nos rios, nos mares, nos peixes que se acasalam livremente, reproduzindo-se aos milhões, correndo ou parando, sem preocupações com fronteiras artificiais e/ou alheias ao seu mundo!

Acredito na liberdade patrimônio de todos e de cada um, no estudo persistente, na história de verdades provadas, retrato do passado, na filosofia, na psicologia, na ciência, na arte, no poder de criação do indivíduo, na educação libertária e no HUMANISMO! Abomino a mentira teórica e a prática anti-humana! Para mim um homem vale um homem!

Acredito nas pessoas que os mandatários e seus deseducadores se encarregam de deformar para poder justificar a existência das autoridades irracionais, em prejuízo do homem, da Sociedade que só terá paz e felicidade quando os indivíduos forem capazes de se governar sozinhos ligados emocionalmente pelo coração e pelo cérebro! Quando a Felicidade de um dos seus componentes for a felicidade de todos!

Acredito na Solidariedade Humano! Acredito no Anarquismo!



Postado por Rorix às 1:40 AM.

____________________________________________________

Comentaram:

[ Quarta-feira, Maio 05, 2004 ]

CONTRIBUIÇÕES DA CRÍTICA DA ECONOMIA POLÍTICA PARA A PROBLEMATIZAÇÃO DO CONSUMISMO MODERNO



Maurilio Lima Botelho*



É comum, nas grandes metrópoles contemporâneas, o comportamento de certos indivíduos que, diante de carência afetiva, tristeza, solidão, tensão, frustração profissional, estresse ou simples tédio, vão às compras. A aquisição de mercadorias, evidentemente, não leva a uma eliminação desses problemas, mas tem um efeito atenuante, paliativo. Também o passeio no shopping, a experimentação desinteressada de roupas ou calçados e a contemplação das vitrines estão se tornando passatempos comuns, articulados ou não à falta de condições econômicas adequadas para se esvair em compras (embora se torne cada vez mais freqüente o consumo compulsivo que ignora a falta de crédito). Esse ato de refrear uma inquietação a partir do consumo é um exemplo banal, vulgarizado até, da íntima relação que há entre a psicologia individual, entre modos comportamentais e estados sentimentais e a estrutura econômico-social moderna.

Considerar essa relação, evidentemente, não é definir a psique a partir da base ou infra-estrutura econômica da sociedade[1], mas pensar numa estreita relação entre os processos sociais e o modo de apreensão (sensorial e cognitivo) desses processos, ou levar a sério aquela unidade de ser e consciência que postulava a filosofia clássica alemã. Levando em conta que o objetivo central da obra A ética romântica e o espírito do consumismo moderno, de Colin Campbell, é demonstrar os vínculos entre os valores românticos e o consumismo moderno, talvez esse tipo de interpretação pudesse apontar algumas relações mais profundas entre o comportamento insaciável do hedonista moderno, a racionalidade protestante e o romantismo, além das significativas ligações apontadas pelo sociólogo inglês.

Se se considera a mercadoria como a unidade básica do mundo moderno, como o nexo responsável pela própria socialização dos indivíduos, deve-se levar em conta que a estruturação do imaginário social, assim como a estruturação da subjetividade individual, baliza-se por essa forma social. Assim, seguindo a crítica da economia política marxiana e a ênfase hegeliana realizada pelo Lukács de História e consciência de Classe, Alfred Sohn-Rethel formulou a tese da identidade secreta entre o sujeito transcendental kantiano e a forma mercadoria, apontando que a forma da própria consciência é devedora da forma mercadoria, assim como a forma sujeito que envolve os indivíduos é plasmada pela forma que assumem os produtos do trabalho dos homens em condições de mercado. O desenvolvimento dessa relação pode se mostrar bastante profícuo para a análise da relação entre os estados psicológicos do indivíduo moderno e o ato de consumo, na medida em que se considera que o próprio ato de troca é um acontecer que não acontece: dado o fato de que a mercadoria é um resumo abstrato de trabalho passado que tem sua expressão no valor, o ato de troca é um ato que só "toca" a forma social da mercadoria, não o seu conteúdo material ¿ este, por sinal, é completamente abstraído e ignorado, porque o objetivo da troca é, primordialmente, a valorização de valor, sendo a satisfação das necessidades um efeito secundário. Assim, se a troca "se funda na pura ausência de um acontecer" (Sohn-Rethel, 2002), a satisfação por parte do consumidor é necessariamente protelada. Nesse sentido, pode-se afirmar que "o consumidor moderno (...) se caracteriza por uma insaciabilidade que se eleva de uma básica inexauribilidade das próprias carências, que se levantam sempre, como uma fênix, das cinzas de suas antecessoras" (Campbell, 2001: 59). Daí a utilização, tanto por parte de Campbell, quanto por parte de Adorno e Horkheimer (compartilhadores da tese de Sohn-Rethel), da imagem de Tântalo[2].

A análise de Campbell do hedonismo moderno e da ligação entre o impulso para o novo que caracteriza esse hedonismo, em contraste com o tradicional, é semelhante também à constante necessidade de novidades que impõe a indústria cultural, destacada na análise de Adorno e Horkheimer. Como "a procura do prazer, em sua forma peculiarmente moderna, não se opõe à prática da satisfação adiada, mas se alia basicamente a esta" (Campbell, 2001: 129), torna-se inevitável a relação deste comportamento com a indústria cultural ¿ sua forma mais avançada ¿ que apresenta um novo produto a ser consumido que é sempre o mesmo[3].

Também o desenvolvimento das condutas modernas, analisado por Campbell ao longo da obra, subjaz a própria estrutura do sujeito mercantil, onde o ascetismo exigido no processo de trabalho é complementado pelo comportamento desinteressado, imaginoso e romântico do tempo livre. Se o "puritanismo" e o "romantismo" são "culturas gêmeas" que "asseguram o contínuo desempenho daquelas formas contrastadas, mas interdependentes de comportamento essenciais à perpetuação das sociedades industriais, que emparelham consumo e produção, diversão e trabalho" (Campbell, 2001: 317), então se explica que o desenvolvimento contemporâneo tenha dado origem à cultura massificada onde as "obras de arte são ascéticas e sem pudor, a indústria cultural é pornográfica e puritana" (Adorno e Horkheimer, 1986: 131).

Se aceitamos que a configuração desse sujeito moderno é essencialmente formulada a partir da mercadoria, poderíamos pensar até mesmo na "civilização" dos mecanismos psicológicos mais internos pela esfera mercantil, isto é, já que com a modernidade as "emoções vieram a ser localizadas 'dentro' dos indivíduos" (Campbell, 2001: 106) e a partir daí elas são utilizadas para os devaneios e para a experimentação na vida quotidiana, então a vida quotidiana, dominada pela compra e venda, só poderia levar a uma catexização da forma mercadoria: "quanto mais inexoravelmente o princípio do valor de troca subtrai aos homens os valores de uso, tanto mais impenetravelmente se mascara o próprio valor de troca como objeto de prazer" (Adorno, 1980: 173). Como não é o corpo material da mercadoria o objeto a ser consumido, mas a sua simples forma, então se explica a constante reprodução do "ciclo de desejo-aquisição-desilusão-desejo renovado" (Campbell, 2001: 132), pois é o ato de troca como tal que é o alvo do prazer.

Poder-se-ia argumentar que a relação entre a obra de Campbell e a crítica da economia política ¿ esta servindo de fundamento para muitas das conclusões daquela ¿ se esgota por aí. Afinal, se é o ato de troca o objeto da libido, isto é, da "ética romântica" que funda o consumismo moderno, então não se poderia acompanhar a argumentação de Campbell que se refere a esse importante lugar ocupado em nossa cultura "mais pelas representações dos produtos do que pelos próprios produtos" (2001: 134). Com razão, uma análise que considera a estrutura econômica como "base" ou "infra-estrutura material" da sociedade poderia negar essa conclusão ou, no máximo, imputá-la à ideologia, à mistificação dos meios de comunicação etc., mas, o fato é que a crítica radical da forma mercadoria concordaria com a afirmação de Campbell de que "o consumismo moderno é tudo, menos materialista" (2001: 131)[4].

Acompanhando o raciocínio de Campbell e fornecendo-lhe consistência crítica, poderíamos nos remeter à obra de Guy Debord, A sociedade do espetáculo, que, numa das mais originais avaliações da sociedade contemporânea, considerou como desenvolvimento natural da "sociedade do espetáculo", isto é, da sociedade fetichizada pela mercadoria, a substituição da experiência do ser pelo ter e, posteriormente, do ter pelo parecer (s/d: 17-18)[5]. Já que Campbell trata da primazia das "representações dos produtos", cabe lembrar que a primeira tese da obra de Debord afirma que "tudo o que era diretamente vivido, afastou-se numa representação" (s/d: 11), exato resumo da alteração do hedonismo tradicional pelo moderno. Representação, por sinal, pode ser visto, como na dialética hegeliana, como uma categoria que enfatiza a relação exterior com os objetos, isto é, uma relação mediada por sensações, intuições etc. e que, por isso, impediria uma apreensão profunda, essencial, o que, no quadro do comportamento consumista moderno, poderia ser identificada à "construção imaginativa" (Campbell, 2001: 122), que se realiza como uma experiência frustrante.

O desenvolvimento da modernidade ¿ isto é, a transformação de todo o mundo num grande mercado e de tudo em objeto de compra e venda ¿, atinge o estágio em que o fetichismo da mercadoria rebaixa as próprias relações sociais a meras representações. Isso configura, por um lado, a autonomia plena da imagem que a mercadoria faz de si mesma, a ponto de não mais depender do ato de compra para se afirmar como nexo social ¿ embora os indivíduos ainda necessitem contemplá-la para que satisfaçam falsamente seus desejos ou anseios ¿ e, por outro lado, demonstra o quanto a realização individual está fadada ao fracasso nesta mesma sociedade que, contraditoriamente, apresenta o indivíduo como a ¿mais louvada realização da era moderna¿ (Marcuse, 1968: 205).

Uma avaliação da crítica da economia política seria, no mínimo, essencial para a problematização do consumismo moderno. Esta problematização na obra de Campbell obtém importantes contribuições ¿ entre elas a crítica que realiza das teorias que explicam o consumismo e a moda a partir da "maquinação da propaganda" ou da "emulação" ¿, mas encontra seus limites na falta dessa fundamentação crítica, daí a tentativa de derivar o próprio consumo do "prazer imaginativo" ou de um "hedonismo 'mentalístico' "(2001: 130), invertendo o desdobramento imanente ao processo de troca e resvalando numa explicação volitiva grosseira.



Referências bibliográficas:



Adorno, T. W. O fetichismo da música e a regressão da audição. In: Benjamin, Adorno, Horkheimer, Habermas (Os pensadores). São Paulo: Abril Cultural, 1980.



Adorno, T. W., Horkheimer, Max. Dialética do Esclarecimento - fragmentos filosóficos. 2ª ed. Rio de Janeiro: Zahar Editores, 1986.



Campbell, Colin. A ética romântica e o espírito do consumismo moderno. Rio de Janeiro: Rocco, 2001.



Debord, Guy. A sociedade do espectáculo. Lisboa: Edições Afrodite, s/d.



Kurz, Robert. Razão Sangrenta - 20 Teses contra o assim chamado Iluminismo e os "valores ocidentais". Disponível em: http://planeta.clix.pt/obeco/. Acesso em: dezembro/2002.



Marcuse, Herbert, Eros e civilização ¿ uma interpretação filosófica do pensamento de Freud. 3ª ed. Rio de Janeiro: Zahar Editores, 1968.



Marx, Karl. O Capital: Crítica da Economia Política. Livro I, tomo 1. 2ª ed. São Paulo: Nova Cultural, 1985.


Postado por Rorix às 12:30 AM.

____________________________________________________